JOSÉ
ANTÔNIO AREIAS FILHO,COHECIDO POPULARMENTE POR “ZÉ AREIA”, NATURAL DE NATAL-RN, NASCIDO EM 13 DE MAIO DE
1900 E FALECEU EM 31 DE JANEIRO DE 1972, BOÊMIO, CARNAVALESCO, BARBEIRO E
BISCATEIRO
José Antônio Areias Filho, o popular Zé Areia (1900-1972), foi
barbeiro, vendedor, biscateiro e principalmente, no feliz perfil feito por
Veríssimo de Melo, “humorista nato, improvisador excepcional, satírico e
epigramista”, mesmo sendo analfabeto
De raciocínio rápido e presença de espírito sem igual, Zé
Areia tinha verve ferina e levou vida boêmia e completamente despreocupada,
quase nunca pensando no amanhã.
A sua vida confunde-se com a de uma Natal provinciana e as
suas tiradas fizeram a provinciana Natal rir, e rir muito. Aplicou golpes nos
norte-americanos durante a guerra e tripudiou de autoridades, amigos e
desconhecidos.
Durante a guerra, Natal, segundo José Nazareno Moreira, no
seu Cidade em Black-out: crônicas referentes à Segunda Guerra Mundial,
citado por Veríssimo de Melo, “adquiria novos hábitos e modificava rapidamente
os seus costumes.” O autor mostra como a pacata cidade, “cujos habitantes ainda
botavam as cadeiras na calçada para exercitar a ‘língua de prata’ na
maledicência, ou narrar e ouvir histórias sobre ‘burras-de-padre’,
‘papa-figos’, ‘mães d’água’ e sobre lobisomens e o ‘negro melado’ que
atemorizavam os adultos e assustavam as mocinhas, passa abruptamente a tratar
de frente com o invasor branco, os ‘galegos’ yankees”, levando-a a mergulhar
“numa agitação irrefreável (…), tanto na parte restritamente social como
doméstica.”
E foi ali, naquele mundo em ebulição, que sacudia a capital
do Rio Grande do Norte, que Zé Areia, o nosso Pedro Malasartes, deitou e rolou,
ocupando, conforme Veríssimo de Melo, um espaço de imortalidade, um lugar de
proeminência que o alçou à condição de vulto dos pouco mais de quatrocentos
anos da cidade, construindo algumas das passagens mais hilárias de nossa
história
Seguem dez delas. Selecionarei outras em outro momento:
1) Depois de guerra, Zé Areia voltou à velha miséria. Não
tinha emprego e vivia de vender qualquer coisa que encontrava.
O chefe de polícia, general Ulisses Cavalcanti, arranjou-lhe
emprego de barbeiro, na Casa de Detenção de Natal.
Zé Areia trabalhou alguns dias e logo depois desapareceu e
outro barbeiro passou a fazer o serviço dele.
Quando o general Ulisses soube que Zé Areia abandonara o
emprego, mandou chamá-lo e quis saber o motivo.
Zé Areia informou:
– Subloquei o emprego.
2) Zé Areia entrou no restaurante de dona Zefinha, no bairro
das Rocas, e pediu uma galinha assada.
Foi servido e com fidalguia ofereceu à dona Zefinha um pouco
do manjar.
– Vamos comer uma galinha, dona Zefinha?
– Não gosto de galinha, respondeu mal-humorada a senhora.
– Isso é que é uma classe desunida, devolveu Zé Areia.
3) Um rapaz perguntou, para troçar com o gordo Zé Areia:
– Quantos quilos você pesa, Zé?
A resposta foi maliciosa:
– Você já esqueceu?
4) Um norte-americano veio a Zé Areia reclamar a venda de um
papagaio cego.
– My friend, você quer papagaio pra falar ou pra assistir
cinema?
5) Zé Areia vendeu uma coruja como uma nova espécie de
papagaio e dias depois o norte-americano veio lhe reclamar que o bicho não
falava.
Para consolar o incauto comprador, Zé saiu-se com essa:
– Não fala, mas presta uma atenção.
6) Zé Areia procurou José Leandro para alugar uma casa na
praia do Meio, que lhe disse:
– A você só alugo com fiador.
Zé Areia procurou o deputado Djalma Marinho, seu amigo do
peito, e pediu-lhe uma carta de fiança e foi rapidamente atendido.
Transcorridos noventa dias, Zé não pagou um centavo e José
Leandro se queixou a Djalma, o fiador
Certo dia, Djalma encontra-se com ele e reclama, ressentido:
– Mas Zé, já me telefonaram várias vezes cobrando
aquele empréstimo.
E Zé Areia, cínico, com fingida indignação:
– Deputado, compenetre-se e pague. Era só o que me faltava!
Pra que eu seleciono tanto meus avalistas? É pra não sofrer decepções como
esta!
7) Certa tarde, no Natal Clube, Zé Areia espalhou em várias
rodas de conversa que Djalma Marinho lhe devia cinquenta cruzeiros. Ao chegar
ao clube, a conversa corria à solta e Djalma estranhou, porque simplesmente não
lembrava da dívida.
Ao encontrar o amigo, perguntou:
– Zé, que conversa é essa de que eu lhe devo cinquenta
cruzeiros?
– Deve, sim. Eu lhe pedi, naquele dia, cem cruzeiros e você
só me deu emprestou cinquenta, lembra?
8) Zé Areia rifava um belo cabresto, com arreios de prata,
quando um conhecido e próspero comerciante de Natal resolveu dispensá-lo.
– Eu não compro porque não tenho cavalo. Logo o cabresto não
me serve.
Zé Areia rebateu:
– Serve pra burro também.
9) Zé Areia organizou rifa de um carneiro grande e gordo.
Quando foi entregar o prêmio, Luiz de Barros, o vencedor, reclamou do bicho
mirrado que recebia:
– Espere, Zé. Não foi este o carneiro que você mostrou ontem.
– É ele, seu Luiz. É que ficou no relento a noite toda. Como
choveu muito, o coitadinho encolheu.
10) Num dia de procissão, Zé Areia esperava que a imagem
subisse a ladeira para depois “ir tomar umas” e alguém lhe pergunta:
– Zé, vai pedir o que ao santo?
E ele, sem titubear, responde: – Vou pedir ao meu Bom Jesus
que transforme minha cruz, toda ela, em cortiça.
FONTE – A HISTÓRIA ESTÁ NOS DETALHES, DE SÉRGIO
TRINDADE

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